Vamos com um texto do blog da principal jornalista do Sistema Arruda de Comunicação: Ana Maria Campos. Ela conta os bastidores da entrevista com o governador. Destaque para a parte que ela fala que fez todas as perguntas!
Making of de uma entrevista
Fiz várias entrevistas com o governador Arruda em minha carreira como jornalista. As primeiras ocorreram quando ele era senador, poderoso líder do governo FHC no Senado.
Na época da crise da violação do painel do Senado, eu trabalhava no Jornal do Brasil e cobria o Congresso. Como tinha experiência com a política local, fui escalada para virar a sombra de Arruda. Tinha de saber tudo o que ele fazia, com quem conversava e o que pensava. No fim do dia, depois de escrever a matéria sobre todas as confusões, eu fazia uma avaliação sobre os rumos da crise.
Outros jornais noticiavam que Arruda pensava em renunciar e meu chefe na época -- o jornalista Expedito Filho -- me cobrava. Eu garantia: ele ainda não pensa num ato extremo. Seguia lutando.
Numa noite, ouvindo pessoas bem próximas de Arruda, tive a certeza de que ele desistira e bancamos que no dia seguinte, o então poderoso senador renunciaria às 10 horas da manhã. Dito e feito. Arruda foi à tribuna do Senado e desistiu do mandato.
Depois da renúncia, ele deu várias entrevistas em casa. Mas eu e Expedito voltamos à tarde quando já não havia nenhum jornalista. Arruda nos deixou subir no apartamento da 114 Sul, onde morava, e conversamos sobre o episódio até então mais triste de sua vida. Ele estava muito abalado, cercado de poucos amigos, e abriu o coração para nós.
Nesse dia, ele falou pela primeira uma frase que ficou célebre sobre o pós-renúncia. Usamos na matéria do dia seguinte e depois ele repetiu muitas vezes: "Sinto-me como se estivesse assistindo ao meu próprio velório".
Arruda foi o fundo do poço. Mas sobreviveu.
Eu ainda tive muitas oportunidades de entrevistá-lo. Arruda virou o deputado federal mais votado de Brasília, derrotou Paulo Octávio no partido, conseguiu se tornar candidato e se elegeu governador no primeiro turno em 2006.
Nesta semana, tive a oportunidade de entrevistá-lo novamente num momento crítico.
Muita gente considerou que seria uma entrevista amigável porque ele quis falar ao jornal da cidade. Mas não foi. Fizemos quase todas as perguntas que poderíamos fazer: confesso que no calor do debate eu deixei de perguntar se ele sabia a origem do dinheiro que supostamente comprou os panetones.
Perguntamos todo o resto. Insistimos muito na relação com Durval Barbosa. Ele se saiu muito bem nas respostas porque uma de suas qualidades é o poder da oratória. Arruda não consegue explicar, no entanto, por que manteve Durval tanto tempo em seu governo. Depois entrou numa contradição: disse que estava aliviado por se livrar de Durval, mas negou que estivesse sendo chantageado.
Ele estava com um ar de quem está disposto a brigar, a tentar tudo e não desistir facilmente. Mas está magoado com toda a cobertura e tem dificuldades para aguentar tantos ataques calado. "Estou apanhando muito", disse, quando se despedia de mim e da Lilian Tahan, minha colega na cobertura e amiga.
Quando encerrei a entrevista, tive a convicção de que ele não se entregou ainda. Vai brigar pelo mandato, até porque sabe que agora uma renúncia terá um significado definitivo.
Mas tudo vai depender do tom da crise. Só o tempo dirá quanto tempo Arruda vai resistir. O fim de semana pode piorar muito a situação dele se as revistas semanais vierem com histórias bombásticas. A decisão do DEM sobre apoiá-lo ou expulsá-lo também será fundamental.
Vamos aguardar.